A primeira linha de raciocínio foca na Residência de Dados e na Localização de Infraestrutura. Leis modernas de proteção de dados exigem que as informações dos cidadãos não apenas sejam protegidas, mas que sejam fisicamente armazenadas em servidores dentro das fronteiras nacionais. O argumento técnico-econômico é de complexidade de arquitetura multirregional: as empresas globais não podem mais operar com um único data center centralizado. Elas são forçadas a replicar infraestruturas completas em cada jurisdição onde operam, o que aumenta exponencialmente o custo operacional (OPEX) e introduz desafios massivos de sincronização de bancos de dados distribuídos. A rede corporativa deixa de ser um "backbone" global simples para se tornar um quebra-cabeça de conformidade legal, onde o dado deve ser roteado não pelo caminho mais curto, mas pelo caminho legalmente autorizado.
Em segundo lugar, a Splinternet se manifesta na diversificação da infraestrutura física e dos sistemas de nomes. A dependência de cabos submarinos controlados por potências estrangeiras ou de servidores raiz de DNS localizados em territórios específicos tornou-se um risco de segurança nacional. Países como a Rússia e a China têm investido em versões próprias do DNS e em redes de cabos exclusivas que podem operar de forma independente caso sejam desconectadas da rede global. O argumento é de resiliência geopolítica: a internet tornou-se uma ferramenta de guerra híbrida, e possuir o controle sobre o "interruptor" da rede local é uma estratégia de defesa essencial. Para o gestor de TI, isso significa que a conectividade internacional não pode mais ser dada como certa; planos de continuidade de negócios agora precisam prever cenários onde fatias inteiras da internet mundial podem ficar inacessíveis subitamente devido a tensões diplomáticas.
Além disso, a fragmentação atinge o nível da pilha de protocolos e da inovação tecnológica. Estamos vendo o surgimento de padrões divergentes para tecnologias como o 5G, reconhecimento facial e inteligência artificial. O argumento estratégico é que a escolha de um fornecedor de hardware ou software agora carrega uma carga política implícita. Se uma empresa adota uma infraestrutura de rede chinesa, ela pode enfrentar barreiras de interoperabilidade ou sanções em mercados ocidentais, e vice-versa. A internet está perdendo a sua "língua franca" técnica em favor de ecossistemas fechados que competem entre si por dominância de mercado. Isso gera um custo de fragmentação tecnológica que atrasa a inovação global, pois as soluções precisam ser adaptadas para funcionar em "bolhas" digitais distintas.
Concluindo, a Splinternet é a realidade inescapável de uma internet que cresceu e se tornou o sistema nervoso da sociedade moderna. Ignorar as fronteiras digitais é um erro de planejamento estratégico que pode levar à paralisia operacional e a multas regulatórias catastróficas. As organizações do futuro devem ser "nativas da fragmentação", projetando suas redes com a flexibilidade necessária para atravessar fronteiras políticas e técnicas, garantindo que o fluxo da informação sobreviva ao fim da rede única e unificada.
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